quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

sobre o tempo

Desapareci do mundo no espaço de uma temporada a fim de que o tempo apagasse as feridas e a raiva. Passei duas semanas revirando o tambor de minha underwood, escondida em meio a teclas que pareciam enormes aranhas de aço se movendo entre as pilhas de papéis amassados, fazendo autópsias de sentimentos que morreram sem nenhuma explicação. Espremidas entre as vielas da máquina, as palavras se afastavam como uma tripulação de esqueletos que saíam dos túmulos de pedra entre a névoa perpétua, desmanchando-se sob os telhados desbotados da cidade infinita, como se quisessem refletir sobre a desordem que as encerravam. As luzes dos postes desmaiavam num sopro de ausência e perda sobre as calçadas. As ruas, ocupadas por mausoléus de casas, carros e cabarés, pertenciam às sombras de homens e mulheres sem rostos que vagavam como soldados esquálidos do pós-guerra. A começar pelos meus amigos de tinta, os amores invisíveis que viviam nas páginas dos livros, incluindo a barraca de cachorro quente da esquina, o mundo com o qual eu havia sonhado, desaparecia como uma ilusão em meio às longarinas e mendigos gelados para os quais ninguém estendia as mãos. Como fossem agulhas suspensas por um novelo de nuvens carregadas, a chuva caía lentamente atrás das vidraças, perfurando o chão. Era antes uma coisa em que ninguém reparava. Tem chovido todos os dias nesse verão.


Pipa.

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